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Confissões subterrâneas

Era mais um dia na minha rotina. Sentado no banco do metropolitano, lá ia viajando nele, ao sabor dos seus característicos balanços. À minha frente via caras, muitas caras. Fartas, cansadas, desiludidas. Como aliás, já é normal. Por incrível que pareça, só os jovens ainda vão sorrindo no metropolitano. Todo e qualquer um que tenha mais de 30 anos ou coisa parecida, esquece-se de rir naquele meio de transporte público. Sabe-se lá porquê.

Mas, como ia dizendo, lá ia eu de volta a casa, quando, no Areeiro, entra um indivíduo de idade avançada, com um andar meio débil. Ninguém se predispôs a ceder-lhe lugar, à luz da terrível boa educação lusa. E mal o metropolitano retomou a marcha, começa o idoso a discursar para uma plateia que, logo à partida, não o queria ver, nem tão pouco ouvir. E dizia ele: “Assim não dá! Isto anda tudo mal. Trabalhei uma Vida inteira, e dão-me uma reforma de fome!” Enquanto uns viravam a cara para ver quem estava a interpretar aquela triste figura, ou abanavam a cara em desacordo e incomodados, ou, no caso dos mais jovens, riam-se a bandeiras despregadas. Mas isso não calava o orador. “Acham, acham mesmo que uma reforma de €207 dá para alguma coisa? Só para medicamentos vai metade! Eu, que trabalho desde os 12 anos. Mal saí da escola, já me obrigavam a ir distribuir leite pelas portas, TODOS os dias!”. Aquilo incomodava-me. Não o discurso em si, mas a indiferença e até a situação extrema que leva a que aquele homem se sujeite àquelas figuras. Mas ele não estava para aí virado, e lá continuava: “Trabalhei uma Vida inteira, descontei milhares de contos, e agora não me dão nada. Mas para esses ciganos que nunca descontaram, dão-lhes tudo. Até casas! Isto está mal, mal demais. Eu fui à Guerra, eu passei por lá e vi coisas que nunca pensei ver na minha Vida. Roubaram-me dois anos da minha juventude! Roubaram-me o que de melhor tinha, para ir para o outro lado do mundo matar e ver pessoas a morrer!”

Todo aquele alvoroço já me tinha feito retirar um phone do ouvido, para ouvir melhor o que dizia o indivíduo. A minha paragem aproximava-se. Saí nos Anjos e ele saiu também. Olhei para dentro da carruagem e vi gestos de ridicularização de alguns passageiros quando o idoso saiu. Os miúdos do secundário ainda não tinha parado de rir. Uma vez fora do metropolitano, o homem continua o seu discurso em alta voz, e lá vai apregoando para um público que insiste em não o ouvir, ou simplesmente em fazer troça.

Aquilo pôs-me a pensar. Bastante até. Perante estas figuras, não hesitamos sequer em adjectivá-los de tontos, doidos, passados dos carretos. Mas a verdade é que ele ali estava a dizer a verdade. A verdade em todo o seu esplendor. E, no meio de tudo aquilo, quem será o doido? O que trabalha, não fala, não reage, aceita rotinas, acha-se feliz por ter um casaco novo e não sabe o que vai ser da sua Vida no dia seguinte, enfim, um fantoche do sistema; ou o homem que já viveu tanto, e insiste em alertar os outros para aquilo que lhe aconteceu?

Quanto a mim, doido é quem desiste de viver ou de inovar, avançar. E naquele metropolitano, os papéis estavam completamente invertidos, tal como tantas vezes estão, pois o velhote era o mais lúcido de todos nós…

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