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A Fuga…

Hoje saí. Irado, revoltado. Algo bem patente no estrondo que resultou do fechar da porta. Não tranquei a fechadura. Deixei de me preocupar com esse tipo de pormenores. O trinco desempenha bem a sua função. É sempre tão subvalorizado…

Saí. Sem destino nem hora marcada. Saí.

Fui para onde as pernas me levaram. Para onde o Sol tem mais brilho. Estou farto de nuvens negras e nevoeiro cerrado. Gosto de ver ao longe. Gosto de planear as coisas devidamente. Os nevoeiros são sempre uma lotaria! O que faz com que as derrotas não sejam dignas ou sequer justas. Assim como as vitórias.

Saí. Estou cá fora. Saí.

 

Quero ver gente. Não interessa quem. Desde que não os conheça. Deambulo no meio deles. Quero misturar-me no meio dos desconhecidos, a fim de me esquecer um pouco de quem sou. Evito atravessar-me à frente dos que tiram fotos. Acho rude. Houve até quem me pedisse, num hesitante e tímido inglês, para lhe tirar uma foto. Assim fiz. A moça era bonita… Devia ter-lhe pedido o número.
Ouço, em barulho de fundo, o som desorganizado de mais uma manifestação de Esquerda. Os seus berros e exigências utópicas misturam-se com as notas tremidas que uma moça retira do seu acordeão a troco de umas moedas. O trânsito foi fechado por causa dos zurzidores de t-shirt e bandeira vermelhas. Não há carros que se me atravessem no caminho. Óptimo, menos uma distracção.

Saí. Sento-me junto à margem do Tejo. Saí.

O Sol mostra-se imponente, parecendo fintar as sempre calmas e imperturbáveis nuvens. Vejo alguém que desenha num pequeno pedaço de papel. Fantástica a Arte de criar com apenas alguns traços. Leves, mas decididos, todos juntos, dão lugar a algo singular e majestoso. Mais à frente uma criança descobre o fascínio que é observar uma gaivota. Engraçado como algo tão trivial parece ser o mais exuberante filme aos olhos de um puto.

Saí. Mudo a música que o iPod me impõe. Saí.

 

Há quem me olhe com olhar intrigado. Não sei se querem perceber o que ostento na pele. As pessoas costumam ser muito curiosas em relação a isso. Hoje, se alguém perguntar, vou mentir acerca do significado. Não quero dar mais de mim.

 

Saí. Uma ruidosa ambulância segue, atarefada, para o seu destino. Saí.

 

Sinto que não devia perder o meu tempo a martelar este ecrã, descrevendo tudo o que vejo, à espera que saia alguma coisa com o mínimo de sentido. Vou parar. Parar e sair daqui.

 

Saí. Ao ritmo do som das ondas. Saí.

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